quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

face sétima - Fumar e saber viver em sociedade

Confesso que não sou fumador nem nunca fui. Posso dizer que nunca me deu para tal coisa, nem mesmo quando, em jeito de contestação ao resto do grupo de faculdade que fumava, decidi, juntamente com o amigo Zé Alberto, comprar um cachimbo e tabaco, por ocasião de uma viagem a Nova Iorque, para depois fazermos a 'guerra do fumo' com os outros! A primeira experiência foi ainda na Big Apple, que há muito tem legislação sobre fumar em recintos públicos, e não era uma mas sim duas leis, uma federal e outra estadual! Portanto, só mesmo na rua poderíamos testar as nossas novas 'armas de guerra'. Digamos que se o objectivo era chamar a atenção de quem passava na rua, conseguimos com grande sucesso! Logo ali ficou decidido guardar tudo até chegarmos a Portugal. Em resumo, durou apenas uma ou duas noites de convívio e os cachimbos foram guardados de vez!

Há muito tempo que se falava em Portugal numa lei do tabaco, e durante muito tempo se continuou a falar mesmo quando já existia legislação para os lugares de atendimentos público mas ninguém parecia cumprir. Entretanto, lá fora as leis iam surgindo e sendo cumpridas...
Há alguns meses estive na Irlanda, mais propriamente em Dublin, e nas minhas deambulações pelos 'institucionalizados' pubs da cidade apenas vi bom-senso e educação. Convém lembrar que a Irlanda é um dos países com maior taxa de fumadores da Europa e os pubs são os seus locais preferenciais, mas como sempre, com bom-senso e educação tudo se resolve e todos acabamos por 'ficar a ganhar'.

Hoje, na edição do Público, podemos ler o seguinte: "A restrição de fumar está a afastar clientes das discotecas, bares, restaurantes e cafés, provocando quebras de receita que chegam a atingir os 70 por cento em alguns estabelecimentos. Perante as quebras, já há empresários a ponderar despedir funcionários. Um mês após a entrada em vigor da lei do tabaco, os espaços de diversão nocturna são os mais afectados. O presidente da Associação Nacional de Discotecas assegura que “o número de clientes registou este mês uma quebra na ordem dos 30 por cento”, comparativamente a Janeiro do ano passado."

Afinal não somos nós os Portugueses uns gajos que nos desenrascamos perante um problema? Será que só somos 'espertos' para fugir ao fisco ou para enganar este ou aquela nas mais diversas situações? Então não conseguimos encontrar uma ou várias soluções para este problema? Sim, porque eu sou pela igualdade de direitos e acho que quem quer fumar tem o direito de o fazer, o mesmo direito que me assiste a mim de poder escolher um local para me divertir e não ter que sair no final da noite com a roupa a cheirar a fumo nem com os pulmões completamente intoxicados! Pois é, acho é que há mesmo muita falta de bom-senso, educação e, mais do que tudo, vontade para agir (sempre no cumprimento da lei, claro!).

Mas afinal o que foi que vi na Irlanda, terra mais a norte do que Portugal, e portanto, com umas temperaturas mais frescas? Se os fumadores são obrigados a vir fumar para o exterior porque não criar uns ambientes mais acolhedores para o fazerem? Todos nós já conhecemos os famosos 'cogumelos-aquecedores' que existem nas esplanadas, certo? Pois, o problema é que as esplanadas são para o verão, dirão alguns! É verdade, será? Mas no inverno não se usam porquê? Conheço algumas cidades europeias e norte-americanas onde as esplanadas estão abertas também no inverno e o ambiente é aquecido pelos tais aquecedores a gás! Algumas até fornecem aos clientes mantas para se aquecerem (mas não são para levar para casa no final da noite!).

Enfim, onde há um problema há sempre uma solução que não tem que ser necessariamente a mais fácil mas também não é sempre a mais onerosa ou mais complicada. Haja bom-senso, educação... mas mais importante, vontade!

Nota: Neste momento em Nova Iorque está a ser discutida uma lei que proíbe fumar no carro desde que se transporte uma criança com menos de 18 anos (sim, no carro particular de cada um!)! E ser for um descapotável?

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

face sexta - Parvónia=Media Markt?

Quem ainda não viu o último anúncio da Media Markt intitulado "Parvónia"?
É no mínimo uma falta de bom senso, de respeito e de conhecimento sobre o Escutismo... mas para mim é algo mais, um recalcamento de alguém que talvez não se tenha identificado neste movimento centenário, ou que por razões que desconheço lhe tenha sido sempre negado enquanto criança!
Confesso que fiquei surpreendido por ter uma agência de publicidade como a TBWA por detrás de tal coisa (não me ocorre outra palavra para definir este anúncio). Depois de trabalhos fantásticos como os anúncios da TMN (quem não anda por aí a cantar o "fui visitar a minha tia a Marrocos"), agora perdeu completamente a minha simpatia! Quanto à Media Markt, não me apanham a fazer compras nestas lojas! E possivelmente tantos outros escuteiros em Portugal e seus familiares optem pela mesma manifestação de desagrado!
Será que as casas-Mãe da Media Markt (na Alemanha) e da TBWA (no Estados Unidos) têm conhecimento desta campanha? Se calhar vale a pena perguntar!
Enfim, nada mais a dizer...

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

face quinta - Die Gottesformel

Terra if fin
De terrors tight
Sabbath fore
Christ nite

Esta é a primeira mensagem codificada do quarto romance de José Rodrigues dos Santos, publicado em 2006 pela Gradiva, com o título A Fórmula de Deus. E é por causa desta mensagem que Tomás Noronha, a personagem principal deste livro, vai ao Irão para tentar decifrar um documento antigo, da autoria de Albert Einstein, o qual se julga ser a fórmula de uma arma atómica de simples fabrico.

O enredo é fantástico e embora só agora o esteja a ler (confesso que não consigo entrar na onda de ler tudo o que a 'moda' dita e por isso deixo passar a loucura inicial) fiquei maravilhado com a história que facilmente cativa o leitor e que me deixou com vontade de ler mais obras do autor.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

face quarta - Daarjeling Limited

Três irmãos que não se falam desde a morte do pai decidem fazer uma viagem de comboio que atravessa a Índia para recuperarem os laços familiares quebrados e se reencontrarem. Mas a "busca espiritual" de Francis, Peter e Jack vai descarrilar rapidamente e eles vão parar ao meio do deserto, com onze malas e uma série de contas a ajustar com a vida. Neste país onde não conhecem nada, começa então uma outra viagem, preenchida com ricos imprevistos, uma verdadeira odisseia, que trará de volta a amizade e a fraternidade... ou talvez não.

Simplesmente fantástico! Cheio de pequenos pormenores e mensagens que Wes Anderson soube tão bem explorar neste filme, dos quais alguns se destacam:
  • a constante procura de respostas e valores humanos na prática forçada de rituais hindus (quando não estamos satisfeitos com a nossa vivência achamos sempre que a resposta está noutras práticas!);
  • o conjunto de malas do falecido pai, distribuídas equitativamente pelos três filhos como herança;
  • a discussão constante entre Francis e Peter sobre a posse de outros objectos como o cinto que fazia conjunto com as malas, ou os óculos usados por Peter (com a graduação do pai e que lhe causavam dor de cabeça);
  • a irritante mania de Francis de controlar e tomar conta dos irmãos mais novos quando decide o que eles vão comer (quem sai aos seus não degenera... afinal essa mania vem da mãe);
  • Jack, o irmão mais novo e sempre colocado à margem das discussões dos irmãos mais velhos como forma de o proteger de tudo e de todos;
Ah... e atentem na curta-metragem, parte integrante do filme, com a participação da bela Natalie Portman que tanta polémica deu ao aparecer nua nas cenas de sexo! É que esta pequena história explica muito do filme que vem a seguir, principalmente no que respeita a Jack.




face quarta/lado B - Into the Wild (2007)
http://www.intothewild.com/

Into the Wild é um dos filmes a estrear na próxima quinta-feira nas salas de cinema em Portugal. Realizado por Sean Penn em 2007, conta a história de Christopher MaCandless (Emile Hirsh), um estudante brilhante e atleta, que decide entregar as suas poupanças, cerca de 24 mil dólares, para caridade e iniciar uma viagem à boleia até ao Alasca!
Baseado numa história verídica e no bestseller de Jon Krakauer, Christopher vai encontrar ao longo desta viagem um conjunto de pessoas que irão moldar a sua vida...

O trailer já me deixou 'com água na boca'... rever o Alasca é algo de fantástico, se juntarmos a este destino a história de uma viagem-aventura que nos transporta numa outra viagem meditativa ao interior de cada um, temos a receita ideal para um filme interessante! Entretanto, já encomendei o livro!

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

face terceira - Lost Park

Lost Park... não, não tem nada a ver com a série de televisão South Park! É o novo projecto musical de Rui Guimarães (voz e guitarra), Nuno Mascarenhas (baixo e teclas) e Pedro Espírito Santo (bateria).
Tendo como referência bandas como Joy Division, Bauhaus e Nick Cave, entre outras, os Lost Park afirmam-se como uma "banda de pós-punk que tenta buscar as sonoridades frias e maquinais da música Inglesa dos finais dos anos 70. Uma abordagem industrial mas mais colorida a uma vertente do rock/punk".

Vale a pena ouvir The Blame Express ou Jumping in Morphine para nos transportarmos à época em que o punk era rei, e para a escola levávamos a mochila militar comprada na Feira da Ladra com os nomes dos nossos ídolos musicais...

A banda vai actuar no próximo dia 1 de Fevereiro no Santiago Alquimista e para quem ainda não conhece este projecto pode espreitar o video do tema Blame Express disponível no YouTube.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

face segunda - sons da cidade pobre

As viagens nos transportes públicos têm inúmeras histórias mas tudo depende de quem as vê e como as vê...

Hoje no comboio entre o Cais do Sodré e Algés encontrei pela segunda vez o 'poeta da linha'. Não sei se algum dia lhe foi atribuído este epíteto, mas achei que é apropriado para alguém que percorre a carruagem durante o percurso referido a cumprimentar todos os passageiros com palavras amigas e surpreendendo alguns com pequenos versos, rimas ou até mesmo adivinhas!
De regresso ao ponto de partida pede esmola em jeito de desculpa, sai na estação de Algés e vai à sua vida! Hoje não tinha trocado e com mil desculpas justifiquei a minha 'falta'...

Fez-me recordar um sonho que tinha no meu tempo de adolescente em que imaginava recolher todos aqueles que pelas ruas da cidade e nos túneis do Metro tocavam acordeão, flauta, orgão ou outro instrumento musical e levava-os a gravarem todos juntos um disco... "Os sons da cidade pobre" era o título do trabalho musical que seria acompanhado de um pequeno livro com as histórias dos músicos! Muitos desapareceram e hoje são substituídos pelos seguidores da moda New Age ou por cães 'amestrados' que uivam e ladram ao som de uma sanfona desafinada...

Enfim, hoje temos a Operação Triunfo, os Ídolos e tantas outras portas abertas para aqueles que ousam enfrentar júri e público mostrando os seus talentos ao mundo... talvez um dia alguém repare nos sons da cidade pobre e sonhe com um CD e um livro de histórias!

Nota: a fotografia foi retirada do blog Catedral (http://catedral.weblog.com.pt/arquivo/035341)

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

face primeira - ler a Bíblia

Ontem alguém me deu a conhecer outra forma de ler a Bíblia! E de que forma mais poética e enamorada senão a do Pe. José Tolentino Mendonça, Doutor em Teologia e poeta português, escritor de peças de teatro, professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa, entre tantas outras actividades.

Confesso que fiquei maravilhado com a naturalidade e a forma como falou de algo por vezes tão difícil de ler (entenda-se viver, sentir, compreender...) como são as Sagradas Escrituras!

Obrigado Pe. Tolentino pela magnífica catequese... fico a aguardar pelo próximo encontro!



E para quem não conheçe a obra deste poeta madeirense, aqui fica um poema retirado do livro Baldios, publicado em 1999...

Da verdade do amor


Da verdade do amor se meditam
relatos de viagens confissões
e sempre excede a vida
esse segredo que tanto desdém
guarda de ser dito

pouco importa em quantas derrotas
te lançou
as dores os naufrágios escondidos
com eles aprendeste a navegação
dos oceanos gelados

não se deve explicar demasiado cedo
atrás das coisas
o seu brilho cresce sem rumor.